A seção “Fala Aí” é o espaço onde apresentaremos opiniões sobre diversos temas relacionados ao autismo.
Escritos por pessoas autistas, familiares e profissionais de diversas áreas, os textos serão publicados mensalmente.
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Ana Karynne

Na primeira vez em que a escola sugeriu o autismo como resposta para as dificuldades que minha criança demonstrava ter na convivência com os outros alunos, confesso que não pensei muito e aceitei sem questionar o primeiro profissional despreparado me disse que eles estavam errados, assim como tantos outros que vieram depois dele e me garantiram que não havia sinal algum de TEA na minha menina.

Eu não sabia nada sobre o espectro autista, não fazia ideia sequer que era um espectro, e ao mesmo tempo em que queria entender o que acontecia com minha filha e reconhecia a mim (e vários familiares) nas situações que estávamos enfrentando, eu ainda acalentava a esperança de que não havia nada errado conosco e se eu tivesse paciência tudo ia passar como cada profissional despreparado me disse que aconteceria…

É que na minha família a gente não é estranho sozinho, sabe? Somos parecidos com quem já era estranho antes de chegarmos nessa vida e esse reconhecimento sempre facilitou tanto quanto dificultou nosso existir! E em função dessa “representatividade” eu cresci acreditando que todas as minhas inabilidades e “estranhezas” eram comuns.

Enquanto eu fazia listas, pesquisava e procurava motivos para ser ou não ser autismo, me descobri autista, claro que foi em um insight ou dois, mas aos poucos, a cada parágrafo, página e capítulo que eu lia, pensando bem talvez tenha sido mais a cada “característica” minha que eu via nela.

Mariana tinha um vocabulário além do esperado para sua idade, estava sempre disposta a interagir comigo, aprender coisas novas e construir brinquedos mas não olhava as pessoas nos olhos, era seletiva com alimentos, não falava com estranhos, tinha dificuldade para se regular emocionalmente, repetia frases e cenas de desenhos, não conseguia se conectar totalmente em conversas e precisava que as coisas estivessem sempre sob seu controle, além de ter verdadeiro pânico de mudanças e surpresas e eu poderia listar sem pensar muito dois ou mais parentes, incluindo a mim e meu pai, que faziam o mesmo. E foi essa associação que finalmente me fez ver que eu, tendo tido todas essas características tão nítidas e ansiogênicas por toda a vida, não estava bem e se não mudasse tudo, saísse do que eu acreditava ser minha zona de conforto e encarasse o autismo em mim, minha criança também não ficaria bem.

Eu nunca gostei de ser olhada nos olhos, tenho quase sempre o mesmo tom de voz e expressão facial independente do que esteja sentindo o que fez com que por muito tempo aceitasse o rótulos de fria e grosseira, por não saber expressar adequadamente minhas emoções e ter dificuldade em imitar comportamentos (apesar de lê-los facilmente), aprendi a suprimir o que sentia e depois analisar com objetividade, sinto ânsia de me esconder embaixo da cama a cada pequena mudança da minha rotina, sou propensa a compulsões e crises de agorafobia, não consigo ultrapassar obstáculos físicos com facilidade, estou sempre batendo e tropeçando em móveis e paredes (e mais de uma vez já tive que garantir a uma senhorinha bem intencionada que meu marido não me bate), preciso que piadas, sarcasmo e figuras de linguagem me sejam explicadas e se possível desenhadas, aprendo e memorizo padrões e assuntos do meu interesse mais rápido que a maioria das pessoas, crio sistemas para estar no mundo desde a hora em que começo a acordar e preciso organizar cada pensamento acelerado e ansioso que passa pela minha cabeça até não ser mais capaz de lidar com nenhum desses pensamentos e enquanto aprendia a dar suporte, estimular, encorajar e respeitar minha criança também aprendi a ter orgulho de cada tentativa por menor que fosse que uma de nós fizesse de estar em um mundo que não entende nenhuma dessas dificuldades e habilidades!

Desde o dia em que pela primeira vez ouvi “pode ser autismo” aprendi sobre neurodiversidade, orgulho autista, ativismo, deficiência, direitos humanos e políticas públicas.

Aprendi também que cada um de nós conhece, reconhece e vive um autismo diferente e nenhuma ou alguma nuance da minha história podem ser aplicadas a sua!

E mesmo que não nos conheçamos e que o dia 18 de junho ainda seja motivo de cisão e discórdia entre muitos de nós, quero te dizer que meu orgulho autista vai além de mim e da minha filha, pois ele se estende também a você e sua família, que apesar do medo, da negação, das dificuldades e dos dias ruins, têm seguido em frente e buscado ser e fazer mais e que desejo (talvez de forma um tanto egoísta) que nem que seja por um momento você se una a mim, em pensamento, e sinta orgulho por cada um de nós que autista, resiste e existe em um mundo que insiste em não saber nos acolher…

Ana Karynne Magalhães, mãe da Mariana, artesã e autista